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Magia Cerimonial Afro-brasileira

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    Admin
  • 29 de abr.
  • 8 min de leitura

Atualizado: 30 de abr.

 

Origens da “Cabala Francesa de Exu” A "Cabala Francesa de Exu" é uma vertente ritualística que associa a imagem de Exu com a hierarquia dos demônios do Grimorium Verum (como Lúcifer, Beelzebuth, Astaroth e Clauneck). Esse hibridismo entre Exu e demônios derivou da assim chamada Umbanda Ocultista (ou esotérica) que combina elementos tradicionais afro-brasileiros com correntes esotéricas europeias, como a teosofia e a literatura de Eliphas Levi, popularizada entre 1950 e 1980.  Essa linha de Umbanda foi desenvolvida no Brasil por diversos autores, sendo Aluízio Fontenelle o principal nome associado a essa sistematização demonológica de Exu. Em seu livro EXU ele realiza a primeira tentativa de organizar e hierarquizar as entidades de Exu e Pomba Gira em estruturas inspiradas nos espíritos do Grimorium Verum (frequentemente chamados de demônios), com cargos como Reis, Príncipes, Duques e Condes.

 

Na verdade, essa associação de Exu com demônios tem origens antigas e bastante anterior ao livro de Fontenelle. Faz parte de um processo histórico longo, iniciado por missionários católicos desde o século XIX, que equipararam o orixá Exu ao diabo cristão devido a sua iconografia fálica e função de mensageiro.

 

Ainda que a Igreja Católica seja a principal responsável pelo sincretismo exu-diabo essa ligação com os demônios do Grimorium Verum é uma “construção discursiva” muito mais recente e que vai além da simples demonização de Exu.  Ela faz parte de uma estrutura hierárquica em que cada Exu cultuado na Umbanda corresponderia a um demônio do Grimorium Verum e que, com a contribuição de diversos praticantes e entusiastas do sistema, passou a integrar conhecimentos da Kabbalah (especialmente a vertente esotérica ou "hermética"), Luciferianismo e Magia Salomônica ao culto de Exus e Pombagiras. Com o passar do tempo esse sistema, como um todo, passou a ser conhecido como Cabala Francesa de Exu, outros nomes adotados foram Quimbanda de Cabala Francesa e Quimbanda Cabalística.

 

Ao contrário do Culto popular de Exus da Umbanda/Quimbanda cujas práticas se baseiam, quase exclusivamente, em ebós ou despachos (oferendas, sacrifícios, trabalhos de magia) os rituais de Cabala (com c) Francesa se diferencia de sua raiz africana por seu foco intensamente ritualístico e cerimonial. Diferente da Kabbalah judaica tradicional, a Cabala Francesa (influenciada por figuras como Eliphas Levi), frequentemente utiliza a Goécia e a Árvore da Vida, buscando o equilíbrio entre forças de luz e sombra.

 

Essa vertente pode combinar rituais e feitiços relacionados a Exu e Pomba Gira com práticas do Grimorium Verum e Lemegeton (A Pequena Chave de Salomão), utilizando sigilos (assinaturas) e hierarquias de espíritos goéticos a outros espíritos (anjos kabalísticos, enoquianos, espíritos olímpicos etc).  A prática faz uso intenso de selos e pontos riscados que mesclam a tradição dos pontos de terreiro com selos mágicos europeus (Goécia) para invocação e domínio de forças.

 

Em resumo podemos concluir que os textos norteadores que pavimentaram o sistema de “Cabala Francesa de Exu”, tem início nos anos 50 mas, historicamente, remonta a própria evolução da espiritualidade afro-brasileira que surgiu no país durante o processo de colonização e da escravização de pessoas negras trazidas da África e que, com o passar do tempo, sofreu sincretização com elementos indígenas e judaico-cristãos.

 

A demonização de Exu e os daemons


A Cabala Francesa praticada na Ordem do Lotus Negro pertence a uma tradição de Magia Cerimonial Afro-brasileira. Essa tradição, de cunho iniciático, teve seu início em 2003 através de um grupo de estudiosos e praticantes de Alta Magia Thelêmica na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais. Esse grupo - no qual fui um dos fundadores junto a Fernando Liguori e Alex B. Elias - representava a uma linhagem espúria da O.T.O Antiqua para o Brasil que tinha, como principal objetivo fundir os métodos da Magia Cerimonial (européia) com elementos da Magia Afro-indígena brasileira. Surgiu assim o Culto da Serpente Negra (CSN) que na O.T.O.A. do Brasil combinava ensinamentos da Umbanda Esotérica (Aumbandham), Vodu Gnóstico (Vodun), Teurgia Enoquiana e rituais de Magia Thelêmica.

 

O método da O.T.O.A do Brasil foi sendo aperfeiçoado e hoje na Ordem do Lotus Negro (O.L.N.) passou a incluir práticas do Catimbó-Jurema Nordestino e elementos do Tantra folclórico hindu. É importante salientar que não confundimos – ou sincretizamos - demônios com Exus (ou Pombas Giras) mas trabalhamos com eles de forma distinta e separados, ainda que, muitas vezes, unidos em uma mesma estrutura ritualística.

 

Exu, na via iniciática da Cabala Francesa do Lotus Negro, não é a personificação do mal e muito menos é anjo decaído para ser associado ao demônio. Pelo menos no ponto de vista da Umbanda, e algumas vertentes de Quimbanda, um Exu é uma alma desencarnada (Egum) em processo evolutivo, atuando como ancestral ou “guia de luz” em planos astrais próximos à Terra. São espíritos que já encarnaram na terra. Na sua maioria, tiveram vida difícil como mulheres da vida; boêmios; dançarinas de cabaré, etc. Já no Candomblé Exu é o Orixá mais próximo dos seres humanos, e por isso mesmo ele integra, em sua assinatura energética, arquétipos semelhantes aos nossos. 

 

Também um demônio dos Grimórios não é entendido como um demônio no sentido bíblico, isto é do ponto de vista moral de um servo de Satanás.  Um demônio é um espírito goético, uma força astral remanescente dos antigos cultos pagãos, anteriores ao Cristianismo, muitos deles são antigas divindades pagãs transformadas ou demonizadas ao longo do tempo. Outros são reconstruções mágicas tardias, entidades panteístas ressignificadas ou híbridas que tem suas raízes em seres mitológicos de natureza ctônica (do submundo), telúrica (da terra) e aéreos.

 

Entretanto, os espíritos goéticos dos Grimórios, de forma semelhante aos Exus, também foram transformados em diabos da cultura judaico-cristã, e isso persiste em suas roupagens fluídicas que apresentam a visão mediúnica, reforçando a identificação com o mal personificado.

 

Para melhor compreensão dos espíritos goéticos, e para diferenciá-los de simples demônios, passaremos doravante a usar o termo daemons. Essa é uma excelente forma de interpretar essas entidades na visão ocultista ou gnóstica, especialmente para denotar um significado diferente de “demônio maléfico” no sentido teológico cristão.

 

Os daemons nunca tiveram vida terrena, são inteligências não-humanas dos reinos sublunares, seres que pertencem a categoria de deuses antigos e esquecidos. São conjurados e, noutras vezes, cultuados sob prisma astrológico, como reflexos ou personificações de energias celestes, influenciados pelos planetas, signos e astros.


Por sua vez Exu é antes de tudo uma força ancestral (KILUNDU), e como presume-se que já teve encarnação humana ele está mais próximo da humanidade do que uma Deidade antiga de cultos pagãos imemoriais. Sob essa perspectiva teológica um Exu pode facilitar o contato com um daemon, ou espírito não-humano. Ao evocar um Exu você estabelece uma ligação com mortos poderosos, ancestrais e energias da natureza que tem uma vibração bastante próxima da humana, o que permite que ele atue como um "mensageiro" entre o plano espiritual e o terreno. Então acredita-se que um Exu, por ter passado pela experiência humana, compreende as dores, desejos e dificuldades terrenas.

 

A sinergia Exu-daemon


Os Exus trabalham em falanges e sabem manipular energias nas esferas mais densas e sutis para abrir caminhos, atuando diretamente na magia, feitiçaria e transformação material.

 

Como na Cabala Francesa cada Exu tem seu nome “secreto” ou cabalístico associado a um daemon eles podem trabalhar juntos para auxiliar o magista em seus objetivos.  Se por um lado Exú é reconhecido como o principal manipulador de energias entre o plano espiritual e o terreno sendo capaz de movimentar forças sobrenaturais o daemon forneceria essa energia (de natureza telúrica) para o Exu trabalhar de forma mais eficaz e rápida. Os espíritos goéticos (daemons) funcionam dentro de hierarquias (Cortes Espirituais) e podem ser usados para diferentes propósitos (saúde, proteção, glamour etc.)  atuando com maior facilidade no astral denso (ou baixo astral) que no plano mental superior ou nas esferas de luz. Já Exu, como princípio de movimento, comunicação e transformação não trabalha somente no astral denso (ou umbral), eles atuam na linha de frente para proteger, abrir caminhos e limpar energias negativas, o que pode ocorrer tanto em planos densos quanto em esferas mais sutis. Por exemplo Exus de trabalho, como os guardiões, atuam na proteção dos terreiros e de seus médiuns, muitas vezes precisando manipular energias densas para transmutá-las em luz, mas sua atuação não se limita a esse plano.  Embora tenham a capacidade de lidar com vibrações mais baixas, alguns deles são guias de luz e atuam de acordo com a necessidade do trabalho espiritual, conectando-se com forças da terra e do fogo.

 

Assim o Exu pode tanto facilitar a comunicação com o daemon a ele relacionado, como pode manipular suas energias para propósitos específicos servindo mesmo de mensageiro do daemon, trabalhando sob sua irradiação.

 

Religião Egípcia Antiga


Algo importante, do ponto de vista teológico, deve aqui ser analisado. Os antigos egípcios acreditavam em um Universo animado onde homens, animais, plantas e até deuses, possuíam uma estrutura multidimensional, incluindo duplos espirituais.

 

Esse duplo espiritual, ou sombra, era chamado de Ka, a energia vital que distingue um ser vivo de um morto.

 

Após a morte física o Ka continuava a existir, mas precisava de manutenção para garantir a vida eterna, necessitava de oferendas rituais de alimentos e bebidas, colocadas no túmulo para sua "alimentação".

 

Considerado uma parte inseparável da alma o Ka sobrevivia para além da morte nos seres vivos e existia também nos seres espirituais, mesmo os não-humanos, sejam deuses ou espíritos.

 

Para os egípcios antigos o Ka de uma divindade podia manifestar-se de várias formas (animais, humanas ou híbridas), sendo considerado a força vital, o "duplo" espiritual ou a energia criativa que sustentava a vida e a identidade da divindade.

 

Os deuses residiam em suas estátuas de culto no santuário do templo. Essas estátuas funcionavam como um receptáculo físico para o Ka. Os rituais diários nos templos, onde alimentos e bebidas eram oferecidos às estátuas dos deuses, tinham como objetivo sustentar o Ka daquela divindade. Acreditava-se que o Ka do deus consumia a essência (o Ka da oferenda) de pães, carnes e cervejas colocadas no altar.


Pois bem, o daemon de um Exu funciona como uma extensão de seu duplo ou Ka. Uma espécie de alter ego do Exu, sua segunda personalidade, seu nome secreto.  O daemon do Exu precisa de um assentamento ou receptáculo para habitar, da mesma forma que o Ka de um egípcio falecido precisava de uma estátua colocadas em sua tumba (chamadas de "Ka-estátuas"), que funcionavam como um corpo substituto.

 

Não acho apropriado estender-me nesse assunto, aqueles interessados nos mistérios do além-vida egípcios podem pesquisar por conta própria.

 

Conclusão:

 

Existe uma tendência muito comum de acreditar que a Goetia (Salomônica, Luciferiana etc.) é o tipo de magia mais poderosa que existe, mas devo alertar que a Goetia é apenas mais uma ferramenta, eficaz sem dúvida, mas tem seus limites como qualquer outra. Entretanto para aqueles interessados posso garantir que os rituais de Cabala Francesa são muito poderosos e que, em mãos hábeis e de conhecimento, funcionam com um mínimo de esforço e um máximo de resultados.

 

Na Ordem do Lotus Negro (O.L.N.) a Cabala Francesa de Exu foi sendo aperfeiçoada e transmitida de maneira discreta aos nossos iniciados. Aos poucos foi absorvido dentro do conjunto de práticas e ritos da Magia Cerimonial Afro-brasileira que, em seus mistérios superiores, incorpora o Grande Rito do Sanctum Regnum de Baphomet, também chamado Exu Maioral que opera junto aos Mistérios Gnósticos de São Cipriano.


O sistema de Magia Cerimonial Afro-brasileira pertence a Ordem interna da O.L.N (Sanctum Regnum) que foi evoluindo para terrenos mágicos mais conectados ao Tantra Abichara e do Katimbó Bruxedo, agregando trabalhos de natureza mais telúrica e elemental como os da Nigromancia Kabalística. Esses sistemas estão sob a influência da energia oculta saturnina da Grande Triforme Hékate Soteira (Alma Cósmica do Mundo) cujos avatares são os 12 Hierarcas do Globo Terrestre, seres que servem de canais de manifestação para a energia agarthiana do Vrill, o Éter-terrestre.

 

A O.L.N incorpora uma estrutura de rituais e ensinamentos filosóficos derivados do hermetismo sethiano, conforme a interpretação de Frater Ketheriel, fundador e Grão-Sacerdote da O.L.N.

 

São trabalhos de natureza hermética ou iniciática que funcionam como uma aliança entre Anjos, Espíritos Planetários, Daemons salomônicos e Exus da magia afro-brasileira. Na prática a utilização de mantras (vibração sonora), yantras (sigilos ou assinaturas astrais) e tatwas (elementos e cores) formam a estrutura dos trabalhos e unem espiritualmente os Céus e a Terra, em harmonia com o axioma hermético que declara: "aquilo que está em cima é como o que está embaixo; o que está embaixo é como o que está em cima".

 

 

 

 
 
 

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